quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Espada de Dâmocies

Era uma vez, um rei chamado Dionísio, monarco de Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia num palácio cheio de requintes e de coisas bonitas, atendidas por uma criadagem sempre disposta a fazer-lhe às vontades.

Naturalmente, por ser rico e poderoso, muitos siracusanos inveja-lhe a sorte. Dâmocies estava entre eles. Era dos melhores amigos de Dionísio e dizia-lhe freqüentemente.

- Que sorte a Sua! Você tem tudo que pode desejar. Só pode ser homem mais feliz do mundo!

Dionísio ficando cansado de ouvir esse tipo de conversa.

- Ora essa! Você acha mesmo que eu sou mais feliz do que todo mundo?

O amigo respondeu: - Mas é claro! Olhe só o seu tesouro e todo o seu poder! Você tem absolutamente nada com que se preocupar!. Poderia sua ver ser melhor do que isso?

Talvez você queria trocar de lugar comigo – disse Dionísio.

- Ora, eu nem sonharia com uma coisa dessas! Mas se eu pudesse ter sua riqueza e desfrutar de todos esses prazeres por um dia apenas, não desejaria felicidade maior.

- Pois bem! Troque de lugar comigo por um dia apenas e desfrute de disso tudo. E então no dia seguinte. Câmocies foi levado ao palácio e todos os criados reais lhe puseram na cabeça as coroas de ouro. Ele sentou-se à mesa na sala de banquetes e foi-lhe servida lauta refeição. Nada lhe faltou ao seu bel-prazer.
Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

-Ah isso é que é vida! – confessou a Dionísio, que se encontrava sentado à mesa, na outra extremidade
-Nunca me diverti tanto.

Dâmocies enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empaldeceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio, para onde quer que fosse. Pois pendia bem acima de sua cabeça uma espada, presa ao teto por um único fio de crina de cavalo. A Lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Ele foi se levantando, pronto para sair correndo, mas deteve-se tremendo que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho fino e fizesse com a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.

O que foi, meu amigo? – perguntou Dionísio – Parece que perdeu o apetite.

-Essa espada! Essa espada! – disso o outro, num sussurro – Você não está vendo?

- É claro que estou. Vejo-a todos os dias. Está sempre perdendo sobre a minha cabeça e há sempre a possibilidade de alguém ou alguma coisa partir o fio. Um dos meus conselheiros pode ficar enciumado do meu poder e tentar me matar. As pessoas podem espalhar mentiras a meu respeito, para jogar o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para tomar-me o trono. Ou então, posso tomar uma decisão errônea que leve à minha derrocada. Quem quer ser líder precisa estar disposto a aceitar esses riscos. Eles vêm junto com o poder, percebe?

- É claro que percebo! – disse Dâmocies – Vejo agora que eu estava enganado e que você tem muitas outras coisas no que pensar além de sua riqueza e fama. Por favor, assuma o seu lugar e deixe-me voltar para a minha casa.

Até o fim de seus dias, Dâmocies não voltou a querer trocar de lugar com o rei, nem por um momento sequer.

Adaptação do Original de James Daldwin

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