terça-feira, 13 de abril de 2010

Eike, o homem dos US$ 27 bilhões



A vida, os negócios e os conselhos do primeiro brasileiro a entrar


na lista dos dez mais ricos do mundo




No início de 2008, o empresário Eike Batista afirmou que seu maior sonho era se tornar o homem mais rico do mundo, dentro de cinco anos. Quase ninguém o levou a sério. Ele era rico, muito rico, conhecido por sua capacidade extraordinária de multiplicar o patrimônio. Mas estava longe dos ícones do capitalismo dos dias de hoje: o megainvestidor americano Warren Buffett, o criador do império da Microsoft, Bill Gates, o magnata mexicano das telecomunicações, Carlos Slim, entre outros. Dois anos depois, seu projeto já não parece galhofa. Eike foi o bilionário que mais ganhou dinheiro no ano passado – sua fortuna aumentou em US$ 19,5 bilhões, segundo a revista americana Forbes, que anualmente publica a lista dos mais ricos do mundo.
 O Brasil nunca teve tanta gente na lista. São 18 pessoas, neste ano, incluindo Jorge Paulo Lemann, o maior acionista individual da AmBev, e Joseph Safra, dono do banco que leva seu sobrenome. E o país nunca teve ninguém entre os dez primeiros. “Sempre achei que ia chegar longe”, disse Eike (leia sua entrevista a ÉPOCA). O patrimônio de Eike chegou a US$ 27 bilhões (R$ 50 bilhões). É pouco mais da metade do primeiro colocado, Slim, que passou Buffett e Gates, com US$ 53,5 bilhões. Mas seu avanço é vertiginoso. Em apenas uma década, Eik
e construiu um império empresarial. Até 2005, calculava-se que sua fortuna chegasse a US$ 1,6 bilhão. Um número enorme, mas insuficiente para entrar na lista dos mais ricos. Ele só conseguiu a façanha em 2008, em 142o lugar, com um patrimônio pessoal de US$ 6,6 bilhões. No ano passado, pulou 81 posições, com fortuna estimada em US$ 7,5 bilhões. Agora ganhou mais 53 posições – além de ele ter ficado mais rico, muitos concorrentes perderam dinheiro, com a crise econômica mundial.
Com 53 anos, ele é um dos mais jovens entre os dez primeiros colocados. Fica atrás apenas do indiano Mukesh Ambani, de 52 anos, do grupo Relliance, que atua em petroquímica, farmacêutica e petróleo. Aparentemente, ainda não está satisfeito. Em fevereiro, Eike deu uma entrevista ao apresentador Charlie Rose, âncora de um talk show nos Estados Unidos. Quando Rose lhe perguntou qual seria seu patrimônio dentro de dez anos, ele disse que teria US$ 100 bilhões. Surpreso, o apresentador retrucou: “US$ 100 bilhões?” Eike respondeu: “Sim, o que eu posso dizer? Estou com sorte...”.
Até pouco tempo atrás, Eike era conhecido menos por suas atividades do que por ser o marido da modelo Luma de Oliveira, com quem foi casado durante 13 anos e de quem se separou em 2004. No mundo dos negócios, era lembrado como o filho do empresário Eliezer Batista, que foi ministro de João Goulart e presidente da Vale por duas décadas, antes de sua privatização, em 1997. Seu sucesso – principalmente em áreas com pouco charme, como mineração, petróleo, logística e construção naval – lhe deu fama própria. “Decidi que minha imagem tinha de mudar em nome de meus filhos”, afirma. “Sou um self made man (expressão americana que designa alguém que se fez sozinho, não por herança) e quero ser uma referência em termos de pensar grande e realizar grandes feitos.”
Nascido em Governador Valadares, Minas Gerais, em 1956, Eike foi educado no Brasil até os 12 anos. Depois morou na Europa (Genebra, Düsseldorf e Bruxelas), seguindo o pai, que internacionalizou a Vale, então controlada pelo governo federal. É fluente em cinco idiomas: além do português, fala alemão, inglês, francês e espanhol. Estudou engenharia metalúrgica na Universidade de Aachen, na Alemanha. Ainda em meio à faculdade, começou a vender apólices de seguro de porta em porta na cidade para garantir uma renda pessoal e se manter de forma independente.
Foi criado pela mãe, na Alemanha. Seu pai, diz, era muito ocupado e distante. Eliezer foi um dos primeiros executivos globais brasileiros, com uma rede de relacionamento de alto nível no país e no exterior. Ainda hoje, aos 86 anos, é o presidente honorário e membro do conselho de administração de empresas do grupo. “Minha mãe era alemã, de Hamburgo, e me ensinou a disciplina e a preocupação com os outros”, diz Eike.
Ele voltou ao Brasil no início dos anos 80 e montou, com apenas 21 anos, um empresa de compra e venda de ouro na Amazônia. Vendia o metal para compradores de grandes centros do Brasil e da Europa. Conta que seu interesse pela área surgiu quando descobriu, na adolescência, a saga de Francisco Pizzarro, o espanhol que saqueou ouro na América do Sul no século XVI. Eike associou-se a um garimpeiro que controlava a região de Alta Floresta, em Mato Grosso. Acabou por comprar a mina. Em um ano e meio no país, com 23 anos, já tinha US$ 6 milhões. Nem tudo funcionou como ele imaginava, mas ainda assim ganhou dinheiro. “Subestimei o clima, as condições técnicas, doenças e logística – mas a mina era tão rica que era à prova de idiotas, porque sobreviveu a todos os meus erros”, diz.
De mina em mina, Eike reuniu ativos que atraíram o interesse da mineradora canadense Treasure Valley, no início dos anos 90. Em troca dos ativos no Brasil, os canadenses lhe deram uma fatia de 11% na empresa. Eike tornou-se então o principal acionista e presidente da empresa, que foi rebatizada de TVX. Iniciou-se, assim, sua mania de batizar empresas com a letra X no fim – ele considera que o símbolo de multiplicação o ajude a gerar riqueza. Em 1998, Eike se desentendeu com os sócios e saiu do negócio com seu primeiro US$ 1 bilhão na mão para investir. Só dez anos depois, porém, sua fortuna deu o grande salto, quando ele vendeu parte da MMX por US$ 5,5 bilhões para a Anglo American. Desse total, US$ 3,3 bilhões foram direto para seu bolso.
As parcerias com a Treasury Valley e com a Anglo American refletem uma das estratégias de Eike: buscar apoio de grupos internacionais. A LLX, de logística, por exemplo, atraiu o Ontario Teacher, fundo de pensão dos professores canadenses, que tem uma participação de 10,7%. Outra característica de Eike nos negócios é atrair executivos de primeira linha – e remunerá-los com fartas participações no capital. Quando abriu a MMX, contratou 90 ex-funcionários da Vale. No conselho estratégico da OGX, está Francisco Gros, ex-presidente da Petrobras, do BNDES e do Banco Central, e outros executivos de primeira linha com passagem pela estatal. “Já engordei muito gato, muito Garfield”, afirma Eike. “Quero tornar você rico, e ficar mais rico ainda”, costuma dizer aos executivos que quer contratar.


Eike oferece benefícios, mas cobra. A porta de sua sala está sempre aberta, e ele costuma despachar no corredor com os executivos. Criou um processo interno, chamado visão 360º, com oito áreas que precisam ser olhadas ao mesmo tempo: engenharia de pessoas, financeira, jurídica, política, logística, ambiente e social, marketing e engenharia da engenharia. O ambiente é informal. Em geral, Eike trabalha de jeans, um blazer, camiseta e tênis. Sua sala, com cerca de 50 metros quadrados, tem uma estante com livros técnicos e uma mesa de mogno com um laptop, telefone e fotos dos filhos, Olin e Thor, e da lancha, Spirit of Brazil.
Sua vida afetiva é tão ou mais movimentada que seus negócios. A parte mais famosa foi a paixão por Luma, fulminante. Em 1990, quando conheceu a modelo, uma semana antes de se casar com a socialite Patricia Leal, decidiu cancelar o casamento civil – ele já havia feito o casamento religioso, posteriormente anulado pelo Vaticano a pedido da ex-noiva. Três meses depois, casou-se com Luma, que terminara um namoro com o então jogador e hoje técnico de futebol Renato Gaúcho. Ela é mãe de dois filhos de Eike, hoje com 18 e 14 anos. Ele e Luma raramente saíam. Mas ela manteve os desfiles de Carnaval, como madrinha da bateria de escola de samba. Sambava, provocante, quase nua. Eike não assistia aos desfiles. Morria de ciúmes. Numa tentativa de aplacá-los, Luma desfilou de coleira, em 1998, com o nome de Eike escrito em brilhantes. Era para mostrar que tinha dono. Eike também pagou uma multa à revista Playboy para cancelar o contrato pelo qual Luma posaria nua de novo (ela já havia feito um ensaio para a revista). Tinha ciúmes também de suas aparições nas novelas. A primeira vez que a viu dando um beijo na TV perdeu o fôlego. Acabou convencendo-a a abandonar os estúdios. Em 2004, os dois se separaram, em meio a rumores de um romance de Luma com um oficial do Corpo de Bombeiros do Rio. Eles mantêm uma relação cordial até hoje. Luma mora com os filhos, numa casa vizinha a sua.
Sua atual namorada, Flávia Sampaio, 23 anos mais nova que ele, também é modelo, como Luma, e advogada. Morena, de cabelos longos, veste-se com o mesmo estilo ousado. O filho mais velho, Thor, segue os caminhos do pai no mundo dos negócios – e na vida amorosa. O irmão menor gosta de acompanhar Eike nos jogos do Botafogo. “Meu pai foi ausente na criação dos filhos”, diz Eike.


Antes do nascimento de seu primeiro filho, Eike participava de corridas de lanchas de alta velocidade. Bateu recorde de velocidade (270 quilômetros por hora) na travessia Rio-Santos com a lancha Spirit of Brazil. Foi campeão mundial na categoria. “Eu queria um título internacional e me dei conta de que não poderia ultrapassar o Ben Johnson nos 100 metros, então decidi colocar alguns motores atrás de mim”, diz. “Ganhei o campeonato brasileiro, o mundial e o americano. Depois saí. Eu não queria morrer.” A paixão pela velocidade não acabou. Em sua mansão de 3.500 metros quadrados no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, mantém na sala um Mercedes SL-R e o motor de sua lancha. Em 1995, ganhou um capacete autografado do alemão Michael Schumacher, quando ele venceu o Grande Prêmio Brasil, guardado no closet de sua suíte. “O Michael é meu amigo. Costumava pedir meu avião emprestado quando vinha ao Brasil e me presenteou com essa raridade.” Eike parece ter transferido o gosto pela competição para os negócios e não tem pudor em se vangloriar de sua riqueza. Em sua página no site de relacionamento Facebook, o assunto preferido são suas conquistas empresariais – e quão rico ele é. “Aprendi com meu pai a pensar grande”, diz. “Os brasileiros não deveriam ter vergonha de ter dinheiro, de fazer dinheiro.”
Quando tem tempo, Eike se exercita na academia doméstica. Não almoça em casa. “Cuido da saúde, mas não sou xiita com exercício nem com alimentação.” O jantar, faz quase sempre na cozinha, conversando com os empregados. Depois do jantar, assiste ao canal de notícias Bloomberg, de economia e negócios. “Fico até as 2 da manhã vendo notícias e as cotações do mercado”, diz. “Penso em business o tempo todo.”
Além da informação e do preparo, Eike acredita em uma ajudinha mística. O logotipo de sua holding é o sol dos incas, que simbolizava força e otimismo. Na entrada de sua casa, há um arranjo de ramos de trigo, folhas de louro, paus de canela e cristais, para espantar mau-olhado. No escritório, adota o feng shui, a arte chinesa de decoração de acordo com a “energia” dos objetos, e só se senta voltado para a porta. “Você apara as energias de quem vem de fora.” Eike também usa a astrologia. “Escorpião é leal”, diz.
“O lado vingativo, dominei com a idade.” Seu número preferido é 63. Certa vez, numa competição de lanchas, buscou o 3 e o 33, já ocupados. Ficou com o 63. E o adotou. No leilão em que arrematou 21 blocos para exploração de petróleo, sua proposta foi de US$ 1,47 bilhão... e 63 centavos. Quando vendeu parte da MMX para a Anglo American, o negócio empacou, até a empresa aceitar um valor que terminasse em 63. A placa de seu Mercedes é EIK-0063. “Venci muitas provas com minha lancha”, diz. “O número dá sorte.” Talvez por contar tanto com a sorte, Eike seja ousado. Atua em áreas que vão da mineração à gastronomia. Critica a aversão do empresário brasileiro a risco, o encanto por negócios com garantia do Estado.
A visão sobre seu sucesso, é claro, não é unânime. Até hoje ele é acusado de ter se beneficiado de informações privilegiadas sobre as riquezas minerais do país, a que seu pai teria tido acesso quando comandava a Vale. Ele se diz cansado da acusação. “Em primeiro lugar, qualquer pessoa poderia requerer uma área de concessão. Em segundo, meu pai tem sete filhos, por que iria beneficiar só a mim?”
A prosperidade de Eike se deve, em boa medida, aos bons ventos da economia mundial. Ele foi beneficiado pela alta das commodities, pela abundância de capitais no mercado global e pela explosão do mercado de capitais brasileiro. Não quer dizer que ele despreze as boas relações com o governo. Eike foi um dos financiadores do filme Lula, o filho do Brasil. No ano passado, quando Lula entrou em atrito com o presidente da Vale, Roger Agnelli, porque a empresa cortou investimentos, Eike tentou dar um “golpe branco”. Com o apoio do presidente e de fundos de pensão de estatais, quis comprar a fatia do Bradesco, responsável pela indicação de Agnelli para o comando da Vale. O presidente do conselho do banco, Lázaro de Mello Brandão, rechaçou o negócio.
Há um método na estratégia de Eike. Em geral, ele investe seu próprio capital nos estágios iniciais do negócio. Depois, recruta especialistas em concorrentes do mesmo setor. Em seguida, busca dinheiro na Bolsa ou por meio de investidores privados. Ao final, vende parte ou toda a sua participação e embolsa o lucro. Sua fortuna foi criada, basicamente, a partir de promessas de lucros futuros. Alguns de seus concorrentes nos setores de mineração e gás dizem que ele vende sonhos e colhe dinheiro. Quando fez a oferta de ações da MMX, sua empresa de mineração na Bolsa, em 2006, Eike tinha apenas algumas licenças para explorar minério de ferro em Mato Grosso, Minas Gerais e Amapá. “Meus sócios não são loucos, não rasgam dinheiro com sonhos.”
Juntas, as empresas de Eike com ações em Bolsa valem quase US$ 37 bilhões (R$ 67 bilhões). Nesta semana, ele deverá abrir o capital da OSX, empresa de construção naval voltada para a indústria petrolífera. Espera captar entre R$ 5,5 bilhões e R$ 9,9 bilhões. Embora tenha muito sucesso, Eike não é um Midas. Vários dos negócios em que pôs a mão fracassaram. Ele chegou a discutir uma parceria com a Enron, a empresa de energia americana que, soube-se depois, fraudava seus balanços. Em 2006, a Bolívia estatizou uma siderúrgica de Eike. O prejuízo foi de R$ 60 milhões. Em 2002, uma fábrica de jipes já havia falido. O mesmo aconteceu com a EBX Express, empresa de entregas expressas. A Clairty cosméticos, fundada com Luma em 1993, nunca decolou. Ele gastou US$ 100 milhões numa mina no Canadá com base em estudos geológicos errados.
Embora se diga preocupado com a sustentabilidade, Eike sofre processos de ambientalistas – pelo impacto ambiental de obras, pelo suposto desmatamento para usar carvão vegetal. Ele nega as acusações. Apesar desses contratempos, Eike é famoso por suas ações filantrópicas, incluindo os US$ 7 milhões que deu à ONG de Madonna, em prol de projetos sociais na África, quando ela esteve no Rio. A cidade é, também, uma de suas obsessões. Sua carteira de projetos chega a R$ 550 milhões no Rio. Costuma referir-se a eles como MPI – Mata Paulista de Inveja. “Como a cultura dos paulistas é sempre fazer as coisas benfeitas, quis começar a fazer coisas no Rio com o padrão paulista.” Foi um dos patrocinadores principais da campanha do Rio para as Olimpíadas, doando R$ 23 milhões. Em 2009, comprou o controle da Marina da Glória, cartão-postal da cidade, e pretende investir R$ 105 milhões para torná-la um centro cultural e turístico. Comprou o Hotel Glória, ponto histórico. “Quero devolver ao Rio sua identidade de cidade de luxo, atraindo turistas.”
Tudo isso só é possível por causa do sucesso estrondoso de Eike nos negócios – e de sua ambição. Ele quer se tornar o homem mais rico do mundo. Um mexicano conseguiu. Por que não um brasileiro?








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